quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Texto que o diretor Juliano Casimiro postou no Facebook

Hoje senti vontade de postar um trecho de texto do Hans-Georg Gadamer e um comentário a respeito desse trecho feito por Marco Antonio Casanova. (Ambos como comentários).

‎"Nós nos formulamos a pergunta: o que é propriamente transmitido pela experiência do belo e, em particular, pela experiência da arte? A intelecção decisiva que precisou ser conquistada aqui foi a de que não se pode falar de uma simples transferência ou mediação de sentido. Com esta expectativa, aquilo que é experimentado no belo artístico seria desde o princípio inserido na expectativa universal de sentido da razão teórica. Enquanto definirmos juntamente com os idealistas, por exemplo, juntamente com Hegel, o belo artístico como a aparência sensível da ideia - em si uma retomada genial do aceno platônico acerca da unidade do bem e do belo - , continuaremos pressupondo necessariamente que podemos ir além desse tipo de aparição do verdadeiro e que o pensamento filosófico que pensa a ideia é mesmo a forma mais extrema e apropriada da apreensão dessa verdade. O erro ou a fraqueza de uma estética idealista parece-nos ser o fato de ela não ver que justamente o encontro com o particular e a aparição do verdadeiro só se dão na particularização em que a arte conquista para nós a sua distinção como algo que nunca pode ser sobrepujado. Este era o sentido de 'símbolo' e de 'simbólico': o fato de ter lugar aqui um tipo paradoxal de referência que incorpora ao mesmo tempo em si mesma e até mesmo garante a significação à qual ela se refere. A Arte só vem ao nosso encontro nessa forma que resiste ao puro conceber - ela é um empurrão violento que nos comunica a grandeza na arte - porque sempre somos expostos de modo indefeso à supremacia de uma obra de arte convincente. Por isso, a essência do simbólico ou daquilo que possui o caráter de símbolo consiste precisamente em não estar relacionado com uma finalidade significativa que precisa ser resgatada intelectualmente, mas reter a sua significação em si" GADAMER.

"No jogo da arte, portanto, tudo acontece como um diálogo em que compreendemos tanto mais quanto fazemos jus à arte como símbolo, ou seja, quanto mais seguimos não nosso ímpeto por buscar sentidos transcendentes e universais em relação à obra, mas antes as referências da obra a seu sentido intrínseco. Exatamente esse processo abre a possibilidade de pensar a arte como festa e como memória, como repetição de uma experiência que jamais nos retém presos a um ponto do passado, mas que sempre renova a cada celebração a alegria do encontro com a obra, potencializando ao mesmo tempo o enriquecimento de nosso manancial compreensivo. A arte constitui aqui lembrança: lembrança do que pode a relação com a arte, do que pode a obra de arte, do que pode o olhar capaz de seguir as indicações da obra." MARCO ANTONIO CASANOVA.

O que mais me agrada nesses trechos é pensar a arte dentro da categoria, se é que se pode falar em categoria aqui, do CONVINCENTE. Quando se para de pensar o corpo como instrumento, no caso do teatro, e se lhe pensa como um "em si" parece-me que ele será capaz de ser reconhecido como o produtor/possuidor da sua festa a ser compartilhada. Acho, por outro lado, que ainda não consigo pensar o símbolo sem a universalidade; tendo, nesse caso da particularização da experiência, do fracasso da significação, a pensar na alegoria, como a morte da idéia, como o momento exato de se fracassar o projeto de um corpo, para que esse corpo construa-se em si, repito, como memória: memória do projeto fracassado, das possibilidades descartadas e das escolhas (in)conscientes. Nas práticas que venho conduzindo com o Euoutro Npc, esse corpo tem sido chamado de "atenso", e as particularidades da sua negociação enquanto experiência do fracasso potencialmente artístico do corpo passam pelo relaxamento e pela vertigem - um corpo que possuí as tensões necessárias de si/em si na experiência e que se erige por seus arcos, em movimentos circulares, em que a coluna realiza um movimento centrífugo de estímulos e recebe, em um movimento centrípeto, a pressão sofrida pelo corpo na experiência festiva da criação, no contato com as materialidades do jogo do criar.

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